Trabalho

O chefe do futuro vai ser um algoritmo?

O uso de inteligência artificial e robótica, que já está presente em sistemas de comunicação e segurança, operações bancárias e até decisões judiciais, chega às relações trabalhistas

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O Uber possui 600 mil motoristas no Brasil — e nenhum chefe para cuidar dessa imensa equipe.

Algoritmos fazem o trabalho de gestão e controlam o desempenho dos colaboradores em tempo real. Não há tempo para feedback. O algoritmo acompanha cada motorista e coleta dados como taxas de aceitação de viagens, taxas de cancelamento, horas gastas conectadas ao aplicativo e viagens concluídas.

A partir disso, calcula a pontuação do motorista e, dependendo da avaliação, pode fazer ameaças de “desativação”, ou seja, a temida demissão. Até o salário é decidido pelo tal algoritmo. Afinal, o valor da corrida é ajustado em função da demanda — e não dá para pedir aumento.

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O uso de inteligência artificial e robótica, que já está presente em sistemas de comunicação e segurança, operações bancárias e até decisões judiciais, agora está chegando às relações trabalhistas. Afinal, o chefe do futuro será um algoritmo?

Além do Uber, outras empresas já usam a tecnologia para ‘chefiar suas equipes’. Um desses exemplos é o Youtube.

A plataforma de vídeos tem cerca de 60 mil canais, com mais de 100 mil seguidores. Os youtubers, responsáveis pelos vídeos, ganham dinheiro todos os meses postando conteúdo na plataforma. Quem decide o que é relevante e merece ser visto — e consequentemente remunerado — são algoritmos com base nas demandas do público e na relevância do assunto.

Empresas como Lady Driver e Cargo-X, que seguem a mesma lógica do Uber, de aplicativo de transporte, também fazem a gestão de seus motoristas com uso da tecnologia. “Seria humanamente impossível gerir essas milhares de pessoas com lideranças tradicionais”, diz Paula Chimenti, professora de Estratégia & Inovação do COPPEAD/UFRJ.

Em 2017, três ex-funcionários do Google criaram uma startup que já recebeu aporte de US$ 40 milhões e está ajudando a substituir os chefes na hora de aumentar o engajamento dos times.

Com ajuda de inteligência artificial, a Humu mapeou as características que definem um bom líder e sobre como promover um bom trabalho em equipe. O software da empresa é capaz de identificar as mudanças comportamentais que seriam capazes de causar maior impacto no aumento da felicidade dos profissionais.

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Com base nisso, manda e-mails e mensagens de texto para “incentivar” as pessoas a praticar pequenas ações no momento certo. É como se o chefe algoritmo identificasse os problemas e ajudasse a equipe a superá-los.

Os robôs já estão entre nós

Mas será que um chefe-robô pode fazer exatamente o que um humano faz? Ou até melhor? Os especialistas ainda estão divididos, provavelmente porque não há experiências suficientes para provar qualquer tese.

Para Paula Chimenti, a tecnologia deve ser um complemento. “Acredito que os algoritmos vão ajudar cada vez mais a gerir equipes, mas não a liderar. A relação humana, baseada em compartilhar valores e propósitos, ainda é essencial”, diz.

Outra dúvida é como os algoritmos, uma vez que identificam problemas, podem contribuir para solucioná-los, em vez de apenas tomar decisões definitivas.

Uma reportagem do portal americano The Verge afirmou que a Amazon rastreia a produtividade de cada trabalhador e gera automaticamente avisos ou até mesmo demissões. Em sua defesa, a empresa disse à publicação que pode haver revisões em casos excepcionais.

“Em algum momento você pode não entender por que o algoritmo toma certas decisões”, diz Ricardo Basaglia, diretor geral das consultorias de recrutamento Michael Page e Page Personnel. Afinal, se por algum motivo os dados estiverem incorretos ou não representarem as diversidades sociais, econômicas, étnicas e culturais, os algoritmos podem ter decisões enviesadas, discriminatórias ou inadequadas.

O fato é que a discussão sobre quando – e como – promover um algoritmo a chefe vale a pena precisa ser acelerada. Uma pesquisa da Universidade de Stanford, nos Estados Unidos, indica que a inteligência das máquinas estará em pé de igualdade com a dos humanos até 2050.

Já a consultoria americana McKinsey calcula que 60% das funções do mercado de trabalho já podem ter pelo menos 30% de suas atividades automatizadas a partir de agora.

Dados recentes de uma pesquisa da consultoria Deloitte nos EUA mostram que cerca de 55% dos gerentes de recursos humanos planejam usar ferramentas de inteligência artificial como parte regular de seu trabalho nos próximos cinco anos.

As mudanças estão acontecendo também na hora do recrutamento. O site Vagas Online, por exemplo, tem um serviço em que um robô inscreve o candidato toda vez que aparece uma oportunidade com seu perfil. O sistema avalia as competências e automatiza candidaturas interessantes reduzindo a necessidade de uma equipe maior de analistas de RH na empresa.

Na outra ponta, muitos currículos são triados por máquinas e nem chegam ao destino esperado por não atenderem algum dos requisitos.

Na opinião de Paula Chimenti, nossa chance “contra a tecnologia” é apostar no que nos torna indispensáveis. “Criatividade ganha força nesse contexto. Atividades repetitivas e manuais perdem relevância e só quem tiver um diferencial, quem souber inovar, estará mais protegido. Seja chefe ou não”, afirma.

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