Desigualdade de gênero

S&P zera empresas sem mulher no conselho; Brasil pena para chegar lá

InfoMoney analisou todas as 63 empresas do índice Ibovespa para saber quais contém mulheres no conselho de administração

SÃO PAULO – Recentemente, o S&P 500, índice em que as 500 maiores empresas dos EUA estão listadas, anunciou que todas as companhias possuem mulheres em seus conselhos de administração. 

Mais especificamente, 11% das empresas que compõem o S&P 500 têm uma mulher, 36% têm duas mulheres, 33% posuem três representantes femininas, 14% têm quatro e 6% possuem cinco ou mais, segundo informações da Bloomberg. 

Mas o processo para chegar a este resultado foi bem lento. Em 2000, cerca de 86% das empresas do índice tinham pelo menos uma mulher no conselho, de acordo com a consultoria Spencer Stuart. E só em 2019, quase 20 anos depois, os últimos 14% das empresas preencheram seus conselhos com mulheres.     

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O InfoMoney fez um levantamento visando analisar a diferença entre homens e mulheres em conselhos de administração das empresas listadas na B3 e comparar com o índice S&P 500. A composição dos conselhos das empresas brasileiras foi retirada do próprio site de cada companhia. E os resultados da realidade brasileira não vão em linha com o progresso – ainda que pequeno – americano. 

Brasil engatinha na paridade de gênero

Das 63 empresas que compõem o índice Ibovespa, 30% delas não possuem mulheres em seu conselho de administração. Por outro lado, quase 70% das empresas contam com pelo menos uma representante feminina.

Pode parecer um resultado mais positivo do que o esperado, mas ao considerarmos todos os assentos disponíveis, o cenário é mais realista: dos 579 lugares das empresas da bolsa, apenas 63 assentos são ocupados por mulheres, o que representa cerca de 11% do total.

Apesar dos números do Brasil serem desanimadores na comparação com os EUA, vale lembrar que esse movimento americano vem em conjunto com uma forte pressão de investidores – incluindo institucionais, como a BlackRock, uma das maiores gestoras de ativos do mundo, e State Street, uma holding de bancos. Cada vez mais, esses grandes nomes trabalham para que a presença de mulheres nos conselhos das empresas que investem aumente.

A gestora chegou a pedir explicações das empresas em que investe sobre a falta de mulheres nos conselhos de administração. Segundo a Bloomberg, no ano passado a BlackRock enviou cartas para empresas com menos de duas representantes femininas, pedindo que justificassem como isso se alinha com as estratégias de longo prazo e o que as companhias fariam para aumentar a diversidade em seus conselhos.

Ainda, a Califórnia definiu um tipo de sistema de cotas com mulheres para empresas com sede no estado no ano passado. Nova Jersey tem um projeto de lei parecido em tramitação. Uma onda nesse sentido vem sendo disseminada por lá.   

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“O grande problema é que o conselho de administração tem um peso gigantesco na condução estratégica e na definição de fatores importantes da empresa. Diversos estudos mostram que decisões do conselho são muito mais eficientes quando se tem grupos diversos compondo esse time, o que inclui a diversidade de gênero”, afirma Regina Madalozzo, professora associada do Insper, PhD em economia pela Universidade de Illinois e sua área de pesquisa é em economia do trabalho com foco no mercado de trabalho de mulheres. 

No final de 2016, o Instituto Brasileiro de Governança Corporativa (IBGC), lançou uma pesquisa sobre o perfil dos conselheiros no Brasil. A amostra foi composta por 339 companhias de diversas áreas. Até então, considerando essa amostra maior, do total de assentos disponíveis apenas 7,9% das vagas de conselhos de administração eram de mulheres no Brasil.

Valéria Café, diretora de Vocalização e Influência do IBGC, explicou que questionados sobre estes resultados à época, os conselheiros de administração do mercado mencionaram que não havia mulheres com experiências relevantes o suficiente para assumir posições em conselhos.  

“Além disso, quando há seleção para nova composição de conselhos, predominam as indicações e networking. Nessa perspectiva, considerando que os conselhos ainda são ambientes predominantemente masculinos, as mulheres encontram poucas portas de entrada”, afirma. Esse é o estudo mais recente do instituto sobre o assunto.  

Regina diz que a falta de diversidade é sinal de que o conselho é formado de maneira endógena. “A busca para preencher essas vagas é feita sempre nos mesmos lugares. Existem sim mulheres capacitadas para ocupar essas posições em várias áreas, não faltam profissionais boas, mas ninguém as contata”, diz a professora. 

Segundo Valéria, a busca pelo aumento de diversidade, antes de ser uma obrigatoriedade, “é uma medida de urgência diante do grande movimento transformacional da sociedade. Fica difícil falar de inovação, disrupção e novos modelos de negócios sem falar de diversidade”.  

Por mais que muitas empresas reivindiquem a prioridade de nomear a melhor pessoa, independentemente do sexo, esses números ilustram que isso não está necessariamente acontecendo quando se trata do recrutamento dos membros dos conselhos.  

“A composição de um conselho de administração deve ter em vista a diversidade de experiências, conhecimentos, comportamentos, aspectos culturais, faixa etária e de gênero. Essa diversidade faz com que o conselho seja mais inovador, questionador e efetivo. A cultura da diversidade na organização, desde o seu conselho, permite pluralidade de argumentos e mais qualidade e segurança na tomada de decisão”, diz Valéria. 

Vale lembrar que neste ano a B3 se uniu ao Programa estruturado de Mentoria desenvolvido em 2014 pelo IBGC, International Finance Corporation (IFC) e  WomenCorporateDirectors (WCD).

“O objetivo é promover troca de conhecimento, experiências, networking e ampliar a visibilidade de mulheres capacitadas para atuar em conselhos de administração, consultivos ou fiscais, e comitês de empresas e entidades brasileiras”, diz a diretoria do instituto Os resultados deste movimento virão em um longo prazo. 

Papel da liderança  

Um tópico importante da discussão é a liderança e seu papel na presença de mulheres no conselho de administração das empresas.

“O presidente do conselho tem muita importância porque ele ou ela pode optar por incluir mais mulheres tanto no conselho, quanto incentivar o movimento na empresa. Um líder que se preocupa com a paridade de gênero não escolhe uma mulher para compor o quadro de membros por justiça social, mas age para possibilitar que mais mulheres tenham a chance de ocupar a vaga”, diz Regina.  

Ela complementa: “não é ser mais leniente na avaliação das mulheres, é avaliar seus próprios vieses e entender que se homens e mulheres são iguais, por que elas ocupam menos lugares? Se o líder é consciente e está atentoele tem certeza que existem mulheres que possam ocupar a vaga”.  

Para especialistas, a questão central é a necessidade de criar as mesmas oportunidades entre mulheres e homens para que elas consigam empregos e vagas nos conselhos de administração. “A fotografia é ruim no Brasil. Uma única mulher no conselho não é suficiente. É um passo, mas estamos muito atrasados”, avalia a professora.   

Veja o resultado do estudo feito pelo InfoMoney sobre as empresas que fazem parte do Ibovespa:

Empresas sem mulheres no Conselho

EmpresaMulheres no conselho Total de assentos em cada conselho
AZUL011
PETROBRAS DISTRIBUIDORA07
BR MALLS PAR07
CIELO011
COSAN06
SID NACIONAL05
CYRELA REALT012
ECORODOVIAS012
ENGIE BRASIL09
ELETROBRAS011
GERDAU MET07
IGUATEMI07
KROTON07
QUALICORP07
RUMO S.A.012
TAESA013
ULTRAPAR09
VIAVAREJO04
WEG07

Empresas com pelo menos uma mulher no Conselho

EmpresaMulheres no conselhoNomes Total de assentos em cada conselho 
AMBEV1Cecília Sicupira13
BANCO DO BRASIL1Débora Cristina Fonseca8
BRADESCO1Denise Aguiar8
BBSEGURIDADE1Isabel da Silva Ramos7
BRADESPAR1Denise Aguiar7
BRF SA1Flavia Buarque de Almeida10
BRASKEM1Ana Lúcia Poças Zambelli11
B2W DIGITAL1Anna Cristina Ramos Saicali7
CCR1Ana Maria Marcondes Penido Sant’Anna12
CEMIG1Renata Bezerra Cavalcanti9
CVC BRASIL1Cristina Junqueira
ENERGIAS BR1Juliana Rozenbaum Munemori8
EQUATORIAL1Tania Sztamfater Chocolat7
GERDAU1Claudia Sender Ramirez9
GOL1Anna Luiza Serwy Constantino9
IRB BRASIL1Maria Elena Bidino8
ITAUSA1Ana Lúcia de Mattos Barreto Villela9
ITAUUNIBANCO1Ana Lúcia de Mattos Barreto Villela11
JBS1Alba Penthegil9
KLABIN S/A1Vera Lafer14
LOJAS AMERIC1Cecília Sicupira8
MARFRIG1Marcia A. P. Marçal dos Santos8
MRV1Betania Tanure de Barros8
MULTIPLAN1Ana Paula Kaminitz Peres7
P.ACUCAR-CBD1Maria Helena S.F. Santana11
RAIADROGASIL1Cristiana Almeida Pipponzi9
LOCALIZA1Maria Letícia de Freitas Costa7
SABESP1Mônica Ferreira do Amaral Porto9
SMILES1Lucila Prazeres da Silva7
TIM1Elisabetta Romano10
USIMINAS1Rita Rebelo Horta de Assis Fonseca8
YDUQS PART1Claudia Sender Ramirez9
B32Ana Carla Abrão Costa e Claudia Farkouh Prado11
EMBRAER2Maria Letícia de Freitas Costa e Maria Antonieta Rosina Tedesco de Oliveira14
FLEURY2Andrea da Motta Chamma e Cristina Anne Betts13
HYPERA2Maria Carolina Ferreira Lacerda e Luciana Cavalheiro Fleischner.9
LOJAS RENNER2Christiane Almeida Edington e Juliana Rozenbaum Munemori8
SUZANO2Ana Paula Pessoa, Maria Priscila Rodini Vansetti Machado9
MAGAZINE LUIZA3Luiza Helena Trajano Inácio Rodrigues, Betânia Tanure de Barros, Inês Corrêa de Souza7
NATURA3Carla Schmitzberger, Silvia Freire Dente da Silva Dias Lagnado e Jessica DiLullo Herrin10
PETROBRAS3Ana Lúcia Poças Zambelli, Clarissa de Araújo Lins e Sônia Júlia Sulzbeck Villalobos9
VALE3Isabella Saboya, Sandra Guerra e Patricia G. M. de A. Bentes13
TELEFÔNICA BRASIL3Claudia Maria Costin, Ana Theresa Borsari e Sonia Julia Sulzbeck Villalobos12
SANTANDER BR4Ana Botín-Sanz de Sautuola y O’Shea, Homaira Akbari, Sol Daurella Comadrán, Esther Giménez-Salinas i Colomer, Belén Romana García16